sábado, dezembro 10, 2011

Nessum dorma

Nessun dorma! Nessun dorma!
Tu pure, o, Principessa,
nella tua fredda stanza,
guardi le stelle
che tremano d'amore
e di speranza.

Ma il mio mistero e chiuso in me,
il nome mio nessun saprá!
No, no, sulla tua bocca lo diró
quando la luce splenderá!

Ed il mio bacio sciogliera il silenzio
che ti fa mia!

(Il nome suo nessun saprá!...
e noi dovrem, ahimé, morir!)

Dilegua, o notte!
Tramontate, stelle!
Tramontate, stelle!
All'alba vinceró!
vinceró, vinceró!

domingo, julho 17, 2011

Resposta de uma professora à mediocre revista Veja


Sou professora do Estado do Paraná e fiquei indignada com a reportagem da jornalista Roberta de Abreu Lima “Aula Cronometrada”. É com grande pesar que vejo quão distante estão seus argumentos sobre as causas do mau desempenho escolar com as VERDADEIRAS razões que geram este panorama desalentador.
Não há necessidade de cronômetros, nem de especialistas para diagnosticar as falhas da educação. Há necessidade de todos os que pensam que: “os professores é que são incapazes de atrair a atenção de alunos repletos de estímulos e inseridos na era digital” entrem numa sala de aula e observem a realidade brasileira.
Que alunos são esses “repletos de estímulos” que muitas vezes não têm o que comer em suas casas quanto mais inseridos na era digital? Em que pais de famílias oriundas da pobreza trabalham tanto que não têm como acompanhar os filhos em suas atividades escolares, e pior em orientá-los para a vida? Isso sem falar nas famílias impregnadas pelas drogas e destruídas pela ignorância e violência, causas essas que infelizmente são trazidas para dentro da maioria das escolas brasileiras.
Está na hora dos professores se rebelarem contra as acusações que lhes são impostas. Problemas da sociedade deverão ser resolvidos pela sociedade e não somente pela escola.
Não gosto de comparar épocas, mas quando penso na minha infância, onde pai e mãe, tios e avós estavam presentes e onde era inadmissível faltar com o respeito aos mais velhos, quanto mais aos professores e não cumprir as obrigações fossem escolares ou simplesmente caseiras, faço comparações com os alunos de hoje “repletos de estímulos”.
Estímulos de quê? De passar o dia na rua, não fazer as tarefas, ficar em frente ao computador, alguns até altas horas da noite, (quando o têm), brincando no Orkut, ou o que é ainda pior envolvidos nas drogas. Sem disciplina seguem perdidos na vida.
Realmente, nada está bom. Porque o que essas crianças e jovens procuram é amor, atenção, orientação e disciplina.
Rememorando, o que tínhamos nós, os mais velhos, há uns anos atrás de estímulos? Simplesmente: responsabilidade, esperança, alegria.
Esperança que se estudássemos teríamos uma profissão, seríamos realizados na vida. Hoje os jovens constatam que se venderem drogas vão ganhar mais. Para quê o estudo? Por que numa época com tantos estímulos não vemos olhos brilhantes nos jovens? Quem, dos mais velhos, não lembra a emoção de somente brincar com os amigos, de ir aos piqueniques, subir em árvores?
E, nas aulas, havia respeito, amor pela pátria.. Cantávamos o hino nacional diariamente, tínhamos aulas “chatas” só na lousa e sabíamos ler, escrever e fazer contas com fluência.
Se não soubéssemos não iríamos para a 5ª. Série. Precisávamos passar pelo terrível, mas eficiente, exame de admissão. E tínhamos motivação para isso.
Hoje, professores “incapazes” dão aulas na lousa, levam filmes, trabalham com tecnologia, trazem livros de literatura juvenil para leitura em sala-de-aula (o que às vezes resulta em uma revolução), levam alunos à biblioteca e a outros locais educativos (benza, Deus, só os mais corajosos!) e, algumas escolas públicas onde a renda dos pais comporta, até a passeios interessantes, planejados minuciosamente, como ir ao Beto Carrero.
E, mesmo, assim, a indisciplina está presente, nada está bom. Além disso, esses mesmos professores “incapazes”, elaboram atividades escolares como provas, planejamentos, correções nos fins-de-semana, tudo sem remuneração;
Todos os profissionais têm direito a um intervalo que não é cronometrado quando estão cansados. Professores têm 10 minutos de intervalo, quando têm de escolher entre ir ao banheiro ou tomar às pressas o cafezinho. Todos os profissionais têm direito ao vale alimentação, professor tem que se sujeitar a um lanchinho, pago do próprio bolso, mesmo que trabalhe 40 h.semanais. E a saúde? É a única profissão que conheço que embora apresente atestado médico tem que repor as aulas. Plano de saúde? Muito precário.
Há de se pensar, então, que são bem remunerados... Mera ilusão! Por isso, cada vez vemos menos profissionais nessa área, só permanecem os que realmente gostam de ensinar, os que estão aposentando-se e estão perplexos com as mudanças havidas no ensino nos últimos tempos e os que aguardam uma chance de “cair fora”.Todos devem ter vocação para Madre Teresa de Calcutá, porque por mais que esforcem-se em ministrar boas aulas, ainda ouvem alunos chamá-los de “vaca”,”puta”, “gordos “, “velhos” entre outras coisas. Como isso é motivante e temos ainda que ter forças para motivar. Mas, ainda não é tão grave.
Temos notícias, dia-a-dia, até de agressões a professores por alunos. Futuramente, esses mesmos alunos, talvez agridam seus pais e familiares.
Lembro de um artigo lido, na revista Veja, de Cláudio de Moura Castro, que dizia que um país sucumbe quando o grau de incivilidade de seus cidadãos ultrapassa um certo limite.
E acho que esse grau já ultrapassou. Chega de passar alunos que não merecem. Assim, nunca vão saber porque devem estudar e comportar-se na sala de aula; se passam sem estudar mesmo, diante de tantas chances, e com indisciplina... E isso é um crime! Vão passando série após série, e não sabem escrever nem fazer contas simples. Depois a sociedade os exclui, porque não passa a mão na cabeça. Ela é cruel e eles já são adultos.
Por que os alunos do Japão estudam? Por que há cronômetros? Os professores são mais capacitados? Talvez, mas o mais importante é porque há disciplina. E é isso que precisamos e não de cronômetros. Lembrando: o professor estadual só percorre sua íngreme carreira mediante cursos, capacitações que são realizadas, preferencialmente aos sábados. Portanto, a grande maioria dos professores está constantemente estudando e aprimorando-se. Em vez de cronômetros, precisamos de carteiras escolares, livros, materiais, quadras-esportivas cobertas (um luxo para a grande maioria de nossas escolas), e de lousas, sim, em melhores condições e em maior quantidade.
Existem muitos colégios nesse Brasil afora que nem cadeiras possuem para os alunos sentarem.. E é essa a nossa realidade! E, precisamos, também, urgentemente de educação para que tudo que for fornecido ao aluno não seja destruído por ele mesmo Em plena era digital, os professores ainda são obrigados a preencher os tais livros de chamada, à mão: sem erros, nem borrões (ô, coisa arcaica!), e ainda assim se ouve falar em cronômetros. Francamente!!!
Passou da hora de todos abrirem os olhos e fazerem algo para evitar uma calamidade no país, futuramente. Os professores não são culpados de uma sociedade incivilizada e de banditismo, e finalmente, se os professores até agora não responderam a todas as acusações de serem despreparados e “incapazes” de prender a atenção do aluno com aulas motivadoras é porque não tiveram TEMPO.
Responder a essa reportagem custou-me metade do meu domingo, e duas turmas sem as provas corrigidas.
Vamos fazer uma corrente via internet, repasse a todos os seus! Grata.
Vamos começar uma corrente nacional que pelo menos dê aos professores respaldo legal quando um aluno o xinga, o agride... chega de ECA que não resolve nada, chega de Conselho Tutelar que só vai a favor da criança e adolescente (capazes às vezes de matar, roubar e coisas piores), chega de salário baixo, todas as profissões e pessoas passam por professores, deve ser a carreira mais bem paga do país, afinal os deputados que ganham 67% de aumento tiveram professores, até mesmo os "alfabetizados funcionais". Pelo amor de Deus somos uma classe com força!!! Somos politizados, somos cultos, não precisamos fechar escolas, fazer greves, vamos apresentar um projeto de Lei que nos ampare e valorize a profissão.


Vanessa Storrer - professora da rede Municipal de Curitiba!

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Eu amo tudo o que foi,
tudo o que já não é
A dor que já não me dói,
a antiga e errônea fé
O ontem que a dor deixou,
o que deixou alegria
só porque foi e voou
e hoje é já outro dia.


Fernando Pessoa

quinta-feira, maio 05, 2011

Pela alegria do reconhecimento da equiparidade de direito nas uniões homoafetivas

Uníssono, a unanimidade do Supremo Tribunal Federal é a voz da militância plural. Brava gente brasileira, neste dia sincero do Brasil de todas as caras e todas as cores, não hoje às margens do Ipiranga, mas aos marginalizados sociais e ao periférico moral, ouvimos um brado de independência, independência do Brasil gay, lésbico, bissexual, transexual, transgênero e de todos que lutam pela dignidade do humano, independência do Brasil de todas as propostas de vida plena, libertos do nihilismo-legal que a constituição machista e patriarcalista ostentava erroneamente e por vezes interpretada como apologia a fobia homoafetiva, quando não previa legislação às famílias espontâneas e/ou às famílias informais, quando não proibia, porém nem atenuava segurança ao direito homoafetivo, hoje temos o caminho de uma legislação que salvaguarda a identidade, identidade essa que era vergonha e agora vencido o preconceito eregiu-se como legítima parcela social, independência que reconduz ao nível da equidade e equiparidade todos sujeitos antes lesados nesta nação plural.
Celebrem, comemorem, façam festa porque a mãe abriu suas asas sobre os que ainda estavam de fora de sua proteção e seus patrícios, hoje, têm a mesma dimensão e tratamento legal. Sabemos que esta nossa determinada parcela social beneficiada pelo direito, não gozará diretamente do novo aditamento legal, porque obviamente não são todos que se unirão, mas é sobre a comunidade da diversidade em geral que se amplifica o reconhecimento da lei e é essa a maior e primeira importância, diante dos fatos sociais e ainda que de forma tardia, recebam a legalização de suas uniões todos que já viviam no intimos de seus lares uma vida de relação afetiva duradoura,  lares esses onde não passava nem padres, nem juízes, mas passava primeiro o amor sincero, a vontade de solidez e o companheirismo, recebam essa realidade e a recebam com a alegria da conquista, esses que já eram família mesmo sem o amparo da lei, a todos que ja eram factualmente uma vida legítima e diferente, aos que hoje testemunham uma relação afetiva estável e eram alheios a esse bônus de liberdade e expressão legal, hoje, recebam nossas congratulações junto ao reconhecimento de entidade familiar e equiparidade de direitos, e recebam dessa nossa maior corte de justiça, o supremo tribunal brasileiro, juízes de atuação justas e excelências ilibadas, egrégios e humanos, todos envolvidos nessa causa humana, desde o procurador geral da república às entidades militantes e até os que torceram no seu íntimo, escondidos de todos na sua feliz homoafetividade, a todos, ao Brasil de todos, a nossa felicitação do novo amanhecer, da liberdade que abriu as asas sobre quem ainda era desprotegido e recorrerá a mesma proteção e acolhimento de entidade familiar. Parabéns a todas as propostas familiares hoje enriquecida com mais uma proposta geradora de vida plena!
Com gosto de conquista e sentimento de vitória, eu Danilo Domingues saúdo a todos de boa vontade!

quarta-feira, maio 04, 2011

Quando sinceros, somos nossa própria casa!

Saber administrar quem somos, passa pela compreensão de si, dar ordens e comandos para a existência e às próprias características. Permitir-se às portas, ou seja, abrir portas para experiências, permitir se a experiência, porém não deixar a análise, porque, se de repente perceber que o conhecimento que adentrou nossa casa através dessa porta que abrimos e não nos serve, é hora de fecha-lá.
A presença de amores fixam se em nós também pela ausência de quem amamos, sofrer essa ausência não é erro, porém insistir em mantê-la como processo que escraviza a ponto de ocupar-se constantemente dela é erro, a ausência que nos torna escravos passa como imposição que fazemos a nós mesmos, retira nos a dinâmica de existir para as novidades, a ausência deve ser lembrança madura e feliz e não motivo de neuro-escravidão.
A possibilidade de ter alguém que fará parte da nossa vida é uma construção. Dizer qual pessoa será um edificio maior ou menor depende de nós mesmos, somente o eu constrói o outro, só o dono da casa sabe dizer a quem abre a porta de sua morada e ainda mais, adomesticar não cabe somente aos animais que estimamos, mas adomesticamos aqueles que queremos como companhia, ou seja, [a+domus = tornar de casa] damos nossa possibilidade de dividir e somar nossa casa com quem consideramos que vale a pena acolher. Somos o que construimos e elegemos, construções e escolhas. Somos nós que elegemos quem terá saliência na nossas realidades, elegemos o que vale mais, elegemos no que crer, em o que fazer e quem permanece conosco na caminhada, mesmo que seja uma ausência, somos nós que dizemos até quando o outro permanecerá. Se adoçamos ou azedamos nossas histórias, de um limão fazemos limonada, ou se não, é uma resposta condicionada a nossa decisão, de como permitir a permanência do outro e se permitiremos permancer, uma dica, se for pra permanecer que seja para melhorar o que se é, que seja para largos sorrisos de lembranças boas e no caso de permitir a presença efetiva de outro indivíduo não permita-se dormir com problemas, sempre limpe a cama dos espinhos que poderá trazer do dia vivido, deitar-se e dormir bem resolvido na vida é um direito para quem quer viver livre, sem amarras de nenhuma natureza, uma vez que o menor espinho poderá causar uma inflamação e se ele não for retirado, poderá perder tudo que ele afeta como parte de si. Há uma necessidade de iluminar nossa consciência de forma positiva, sofrer o luto e administrá-lo, após o sepultamento, seguir o caminho de volta para a casa e a vida cotidiana dos que vivem ao nosso redor. O caminho sempre se confunde com o caminhante, é o caminhante que faz o caminho, por mais que seja difícil de não ter o ponto físico onde depositava carinho, abraço, o prazer de estar junto e a companhia, ignorar o fato não altera o que ja aconteceu de morte, mas precisa se voltar a cuidar da própria casa, quem vitaliza a nossa casa somos nós mesmos, somos nós que acendemos e apagamos as luzes que a clareiam, somos nós quem a sujamos e mais ainda quem a limpa. Permitir a permanência do outro por sua ausência é um desafio para quem quer sorrir com as novidades de outras presenças, sem esquecer o bom de ter vivido sincero presenças passadas.

terça-feira, abril 19, 2011

Verônica. Um olhar face a face.


Diante da liturgia deste tempo, após uma celebração, me propuz a intimizar um personagem da tradição católica. Eu quiz aqui pensar o mistério da dor que nossa paixão tem causado e a relação dos amigos durante o percurso que nos submetemos por padecimento, por morte, por amor e por glória.
Segue o belíssimo canto da tradição, a mulher que enxugou o rosto ensanguentado do Cristo e no pano plasmou o Verdadeiro Ícone [Vero Ícone / Verônica]

Canticus ad Vero Icone
O vos omnes qui transitis per viam: attendite et videte si est dolor sicut dolor meus.
O vos omnes qui transitis per viam, attendite et videte: Si est dolor similis sicut dolor meus.
Attendite, universi populi, et videte dolorem meum. Si est dolor similis sicut dolor meus.

Toda dor é mistério e a dor maior é a própria dor. O Cristo tendo estado com os seus neste mundo, esteve rodeado de muitas mulheres e homens aos quais ensinou. Quem eram essas pessoas que acompanhavam o chamado filho de Deus? Eram pessoas de passados feios, como diriam nossos pais e mães que nos educaram a partir da estética, dizendo nos enquanto pequenos, "não faça isso que é feio, ou, olha que bonito que você fez", compreender a passagem de Jesus na sua sociedade é compreender um rosto diferente, plasmado a partir da verdade, porém não é sublime a figura ensanguentada, é o flexo da decadência. Jesus tendo chamado alguns para conviver, chama neles e deles também seus passados e vivem sinceros, um modo diferente de olhar face a face a vida de cada um.
Tendo Jesus mostrado um modo de vida sincero, não seria diferente a atitude daqueles seus discípulos e discípulas. No caminho da dor toda ajuda é necessária.
Vero ícone, a expressão latina originou o nome de uma mulher da tradição católica, aquela que enxuga o rosto do sofredor, Verônica é passante na via de outra via, ou seja, é passante pelo caminho de outro que também passa. Verônica é outra apaixonada, é outra sensibilizada pela paixão, não somente a sua, mas a daquele a quem a tantos e a ela também, revelara uma forma de viver por amor.
Interessante perceber a mulher que enxuga o rosto do sofredor, a amizade desprendida do momento e da dor, do pesar e da compaixão. Revelação da inutilidade, o fim era eminente, porém a presença da amizade mostra auxílio, dá força para seguir com a cruz.
Momento de redenção que ocorrem aos poucos, pequenos gestos que ligam nos ao sentido de relacionar-se, amizade fiel, resgate, quando deles desprendem olhares de cuidado. O mais bonito da relação é a complascência, não há muitas palavras, há um ato, e isso diz tudo. O fundamental do ato é assemelhar-se, é ir ao encontro da dor, mesmo que não diminua, mas reparte, sofre se junto.
Similitudes nos fazem análogas nossos amigos, diante do caminho difícil, têm insistido na fraqueza que carregamos como cruz, esses, nossos amigos, sabem acorrer até nosso rosto com sinceridade, mesmo que seja para misturar se, sujar-se no sangue vertente das nossas feridas, plasmam nossas dores e suas forças buscam somente o alívio, a recondução para o caminho, mesmo que esse, seja algum modo de fim, uma etapa, uma recondução para uma finalização.
Tantos ícones de verdade, tantas figuras que surgem em nossas vidas, são essas figuras e ícones que tornam menos agressivo o sofrimento, quando por eles e a partir deles mesmos recebemos um alívio, enxugam nosso rosto ferido pelo tempo e por nossas particularidades. Verônicas em nossas passagens, em nossas paixões. Verônicas sempre nos acompanharão no caminho da dor que o amor causou. Somente quem irmanou se ao nosso sangue vertido, ao nosso sofrimento, vê real e verdadeira a nossa face. Verdadeiros ícones são os rostos mostrado e compreendidos na dor.
Esta é uma homenagem aos meus amigos, Verônicas no meu próprio caminho!

segunda-feira, março 28, 2011

Este é o depoimento de um preso político, frei Tito de Alencar Lima de 24 anos

Depoimento de um frei Dominicano (redigido por ele mesmo na prisão). Escrito em fevereiro de 1970 saiu clandestinamente da prisão e foi publicado, entre outros, pelas revistas Look e Europeo.
Fui levado do presídio Tiradentes para a "Operação Bandeirantes", OB (Polícia do Exército), no dia 17 de fevereiro de 1970, 3ª feira, às 14 horas. O capitão Maurício veio buscar-me em companhia de dois policiais e disse: "Você agora vai conhecer a sucursal do inferno". Algemaram minhas mãos, jogaram me no porta-malas da perua. No caminho as torturas tiveram início: cutiladas na cabeça e no pescoço, apontavam-me seus revólveres.
Preso desde novembro de 1969, eu já havia sido torturado no DOPS. Em dezembro, tive minha prisão preventiva decretada pela 2ª auditoria de guerra da 2ª região militar. Fiquei sob responsabilidade do juiz auditor dr Nelson Guimarães. Soube posteriormente que este juiz autorizara minha ida para a OB sob “garantias de integridade física”.
Ao chegar à OB fui conduzido à sala de interrogatórios. A equipe do capitão Maurício passou a acarear-me com duas pessoas. O assunto era o Congresso da UNE em Ibiúna, em outubro de 1968. Queriam que eu esclarecesse fatos ocorridos naquela época. Apesar de declarar nada saber, insistiam para que eu “confessasse”. Pouco depois levaram me para o “pau-de-arara”. Dependurado nu, com mãos e pés amarrados, recebi choques elétricos, de pilha seca, nos tendões dos pés e na cabeça. Eram seis os torturadores, comandados pelo capitão Maurício. Davam-me "telefones" (tapas nos ouvidos) e berravam impropérios. Isto durou cerca de uma hora. Descansei quinze minutos ao ser retirado do "pau-de-arara". O interrogatório reiniciou. As mesmas perguntas, sob cutiladas e ameaças. Quanto mais eu negava mais fortes as pancadas. A tortura, alternada de perguntas, prosseguiu até às 20 horas. Ao sair da sala, tinha o corpo marcado de hematomas, o rosto inchado, a cabeça pesada e dolorida. Um soldado, carregou-me até a cela 3, onde fiquei sozinho. Era uma cela de 3 x 2,5 m, cheia de pulgas e baratas. Terrível mau cheiro, sem colchão e cobertor. Dormi de barriga vazia sobre o cimento frio e sujo.
Na quarta-feira fui acordado às 8 h. Subi para a sala de interrogatórios onde a equipe do capitão Homero esperava-me. Repetiram as mesmas perguntas do dia anterior. A cada resposta negativa, eu recebia cutiladas na cabeça, nos braços e no peito. Nesse ritmo prosseguiram até o início da noite, quando serviram a primeira refeição naquelas 48 horas: arroz, feijão e um pedaço de carne. Um preso, na cela ao lado da minha, ofereceu-me copo, água e cobertor. Fui dormir com a advertência do capitão Homero de que no dia seguinte enfrentaria a “equipe da pesada”.
Na quinta-feira três policiais acordaram-me à mesma hora do dia anterior. De estômago vazio, fui para a sala de interrogatórios. Um capitão cercado por sua equipe, voltou às mesmas perguntas. "Vai ter que falar senão só sai morto daqui", gritou. Logo depois vi que isto não era apenas uma ameaça, era quase uma certeza. Sentaram-me na "cadeira do dragão" (com chapas metálicas e fios), descarregaram choques nas mãos, nos pés, nos ouvidos e na cabeça. Dois fios foram amarrados em minhas mãos e um na orelha esquerda. A cada descarga, eu estremecia todo, como se o organismo fosse se decompor. Da sessão de choques passaram-me ao "pau-de-arara". Mais choques, pauladas no peito e nas pernas a cada vez que elas se curvavam para aliviar a dor. Uma hora depois, com o corpo todo ferido e sangrando, desmaiei. Fui desamarrado e reanimado. Conduziram-me a outra sala dizendo que passariam a carga elétrica para 230 volts a fim de que eu falasse "antes de morrer". Não chegaram a fazê-lo. Voltaram às perguntas, batiam em minhas mãos com palmatória. As mãos ficaram roxas e inchadas, a ponto de não ser possível fechá-las. Novas pauladas. Era impossível saber qual parte do corpo doía mais; tudo parecia massacrado. Mesmo que quisesse, não poderia responder às perguntas: o raciocínio não se ordenava mais, restava apenas o desejo de perder novamente os sentidos. Isto durou até às 10 h quando chegou o capitão Albernaz.
"Nosso assunto agora é especial", disse o capitão Albernaz, ligou os fios em meus membros. "Quando venho para a OB - disse - deixo o coração em casa. Tenho verdadeiro pavor a padre e para matar terrorista nada me impede... Guerra é guerra, ou se mata ou se morre. Você deve conhecer fulano e sicrano (citou os nomes de dois presos políticos que foram barbaramente torturados por ele), darei a você o mesmo tratamento que dei a eles: choques o dia todo. Todo "não" que você disser, maior a descarga elétrica que vai receber". Eram três militares na sala. Um deles gritou: "Quero nomes e aparelhos (endereços de pessoas)". Quando respondi: "não sei" recebi uma descarga elétrica tão forte, diretamente ligada à tomada, que houve um descontrole em minhas funções fisiológicas. O capitão Albernaz queria que eu dissesse onde estava o Frei Ratton. Como não soubesse, levei choques durante quarenta minutos.
Queria os nomes de outros padres de São Paulo, Rio e Belo Horizonte "metidos na subversão". Partiu para a ofensa moral: "Quais os padres que têm amantes? Por que a Igreja não expulsou vocês? Quem são os outros padres terroristas?". Declarou que o interrogatório dos dominicanos feito pele DEOPS tinha sido "a toque de caixa" e que todos os religiosos presos iriam à OB prestar novos depoimentos. Receberiam também o mesmo "tratamento". Disse que a "Igreja é corrupta, pratica agiotagem, o Vaticano é dono das maiores empresas do mundo". Diante de minhas negativas, aplicavam-me choques, davam-me socos, pontapés e pauladas nas costas. À certa altura, o capitão Albernaz mandou que eu abrisse a boca "para receber a hóstia sagrada". Introduziu um fio elétrico. Fiquei com a boca toda inchada, sem poder falar direito. Gritaram difamações contra a Igreja, berraram que os padres são homossexuais porque não se casam. Às 14 horas encerraram a sessão. Carregado, voltei à cela onde fiquei estirado no chão.
Às 18 horas serviram jantar, mas não consegui comer. Minha boca era uma ferida só. Pouco depois levaram-me para uma "explicação". Encontrei a mesma equipe do capitão Albernaz. Voltaram às mesmas perguntas. Repetiram as difamações. Disse que, em vista de minha resistência à tortura, concluíram que eu era um guerrilheiro e devia estar escondendo minha participação em assaltos a bancos. O "interrogatório" reiniciou para que eu confessasse os assaltos: choques, pontapés nos órgãos genitais e no estomago palmatórias, pontas de cigarro no meu corpo. Durante cinco horas apanhei como um cachorro. No fim, fizeram-me passar pelo "corredor polonês". Avisaram que aquilo era a estréia do que iria ocorrer com os outros dominicanos. Quiseram me deixar dependurado toda a noite no "pau-de-arara". Mas o capitão Albernaz objetou: "não é preciso, vamos ficar com ele aqui mais dias. Se não falar, será quebrado por dentro, pois sabemos fazer as coisas sem deixar marcas visíveis". "Se sobreviver, jamais esquecerá o preço de sua valentia".
Na cela eu não conseguia dormir. A dor crescia a cada momento. Sentia a cabeça dez vezes maior do que o corpo. Angustiava-me a possibilidade de os outros padres sofrerem o mesmo. Era preciso pôr um fim àquilo. Sentia que não iria aguentar mais o sofrimento prolongado. Só havia uma solução: matar-me.
Na cela cheia de lixo, encontrei uma lata vazia. Comecei a amolar sua ponta no cimento. O preso ao lado pressentiu minha decisão e pediu que eu me acalmasse. Havia sofrido mais do que eu (teve os testículos esmagados) e não chegara ao desespero. Mas no meu caso, tratava-se de impedir que outros viessem a ser torturados e de denunciar à opinião pública e à Igreja o que se passa nos cárceres brasileiros. Só com o sacrifício de minha vida isto seria possível, pensei. Como havia um Novo Testamento na cela, li a Paixão segundo São Mateus. O Pai havia exigido o sacrifício do Filho como prova de amor aos homens. Desmaiei envolto em dor e febre.
Na sexta-feira fui acordado por um policial. Havia ao meu lado um novo preso: um rapaz português que chorava pelas torturas sofridas durante a madrugada. O policial advertiu-me: "o senhor tem hoje e amanhã para decidir falar. Senão a turma da pesada repete o mesmo pau. Já perderam a paciência e estão dispostos a matá-lo aos pouquinhos". Voltei aos meus pensamentos da noite anterior. Nos pulsos, eu havia marcado o lugar dos cortes. Continuei amolando a lata. Ao meio-dia tiraram-me para fazer a barba. Disseram que eu iria para a penitenciária. Raspei mal a barba, voltei à cela. Passou um soldado. Pedi que me emprestasse a "gillete" para terminar a barba. O português dormia. Tomei a gillete. Enfiei-a com força na dobra interna do cotovelo, no braço esquerdo. O corte fundo atingiu a artéria. O jato de sangue manchou o chão da cela. Aproximei-me da privada, apertei o braço para que o sangue jorrasse mais depressa. Mais tarde recobrei os sentidos num leito do pronto-socorro do Hospital das Clínicas. No mesmo dia transferiram-me para um leito do Hospital Militar. O Exército temia a repercussão, não avisaram a ninguém do que ocorrera comigo. No corredor do Hospital Militar, o capitão Maurício dizia desesperado aos médicos: "Doutor, ele não pode morrer de jeito nenhum. Temos que fazer tudo, senão estamos perdidos". No meu quarto a OB deixou seis soldados de guarda.
No sábado teve início a tortura psicológica. Diziam: "A situação agora vai piorar para você, que é um padre suicida e terrorista. A Igreja vai expulsá-lo". Não deixavam que eu repousasse. Falavam o tempo todo, jogavam, contavam-me estranhas histórias. Percebi logo que, a fim de fugirem à responsabilidade de meu ato e o justificarem, queriam que eu enlouquecesse.
Na segunda noite recebi a visita do juiz auditor acompanhado de um padre do Convento e um bispo auxiliar de São Paulo. Haviam sido avisados pelos presos políticos do presídio Tiradentes. Um médico do hospital examinou-me à frente deles mostrando os hematomas e cicatrizes, os pontos recebidos no hospital das Clínicas e as marcas de tortura. O juiz declarou que aquilo era "uma estupidez" e que iria apurar responsabilidades. Pedi a ele garantias de vida e que eu não voltaria à OB, o que prometeu.
De fato fui bem tratado pelos militares do Hospital Militar, exceto os da OB que montavam guarda em meu quarto. As irmãs vicentinas deram-me toda a assistência necessária Mas não se cumpriu a promessa do juiz. Na sexta-feira, dia 27, fui levado de manhã para a OB. Fiquei numa cela até o fim da tarde sem comer. Sentia-me tonto e fraco, pois havia perdido muito sangue e os ferimentos começavam a cicatrizar-se. À noite entregaram-me de volta ao Presídio Tiradentes.
É preciso dizer que o que ocorreu comigo não é exceção, é regra. Raros os presos políticos brasileiros que não sofreram torturas. Muitos, como Schael Schneiber e Virgílio Gomes da Silva, morreram na sala de torturas. Outros ficaram surdos, estéreis ou com outros defeitos físicos. A esperança desses presos coloca-se na Igreja, única instituição brasileira fora do controle estatal-militar. Sua missão é: defender e promover a dignidade humana. Onde houver um homem sofrendo, é o Mestre que sofre. É hora de nossos bispos dizerem um BASTA às torturas e injustiças promovidas pelo regime, antes que seja tarde.
A Igreja não pode omitir-se. As provas das torturas trazemos no corpo. Se a Igreja não se manifestar contra essa situação, quem o fará? Ou seria necessário que eu morresse para que alguma atitude fosse tomada? Num momento como este o silêncio é omissão. Se falar é um risco, é muito mais um testemunho. A Igreja existe como sinal e sacramento da justiça de Deus no mundo
"Não queremos, irmãos, que ignoreis a tribulação que nos sobreveio. Fomos maltratados desmedidamente, além das nossas forças, a ponto de termos perdido a esperança de sairmos com vida. Sentíamos dentro de nós mesmos a sentença de morte: deu-se isso para que saibamos pôr a nossa confiança, não em nós, mas em Deus, que ressuscita os mortos" (2Cor, 8-9).
Faço esta denúncia e este apelo a fim de que se evite amanhã a triste notícia de mais um morto pelas torturas.
Frei Tito de Alencar Lima, OP
Fevereiro de 1970

domingo, março 20, 2011

Projeto Triângulo

O prefeito de Paris, Bertrand Delanoë, eo grupo Unibail anunciou a construção do Triângulo - um edifício de 492 metros de pirâmide a ser localizado no sul de Paris.
Projeto Triângulo
Fato interessante, muito interessante e surpriendente, a arquitetura francesa toma a frente com inovação, pelo prefeito de Paris, Bertrand Delanoë, há fontes que alegam seu envolvimento com a maçonaria, portanto ele certamente entende o simbolismo de tal edifício, o que não exclue o bom gosto!

Já pensou nessa possibilidade?

À luz do enigma

Depois de bom tempo sem postar nada, numa bela manhã de domingo após a noite que a lua cheia chegou mais perto da terra, decidi retomar uma leitura, obra de Antônio Moser, tudo está calmo, o dia parece preguiçoso e somente o samba (meu cachorro labrador preto) na sua puberdade interrompe o silêncio arrastando o capacho (tapete) pelo quintal, me despertei para o que amanheci pensando, que nada interfere mais o humano que duas polaridades, que se existiu uma presença constante na história do homem, uma é a divindade e a outra a sexualidade.
Não digo polaridades como que controversas realidades uma à outra, seja deus, seja sexo, embora atitudes sexuais possam ir contra princípios de doutrina ou embora existam deuses que representem a sexualidade, uma coisa não liga ou desliga a outra, mas atrelam-se com justeza no humano, fonte e cume de ambas, as duas personificam as aventuras do humano, a sexualidade é uma das energias que movem a vida, como homens e mulheres que também empenham dinâmica pela crença, na afirmaçãode que deus é princípio motor onipotente, figura conceitual e de linguagem ou inexiste, haja visto que a epistemologia assegura que crença é um estado mental que pode ser verdadeiro ou falso e daí nos religa (religião) a um sentindo alterno, enquanto  a psicologia sugere sexualidade como estado Psico-corporal e real que nos relaciona (relação) a um sentindo interno (mesmo com interferência de objetos externos). Parece-me que podemos atribuir complementação de que a religião e uma forma de relação e a relação exige uma maneira de acreditar e disciplinar-se a partir disso.
Quero marcar este post com uma temática de Freud sobre Eros, o amor grego pelo corpo pela fertilidade, ou a atração pelo físico corporal e suas funções: A civilização é um processo a serviço de Eros, cujo propósito é combinar indivíduos humanos individuais e, depois que as famílias, em seguida, raças, povos e nações, em uma grande unidade, a unidade da humanidade. Por isso tem que acontecer, não sabemos, o trabalho de Eros é precisamente este. - Sigmund Freud.
Minhas considerações poderão prosseguir mas ainda preciso concluir algumas leituras, seja da obra do Moser, seja das minhas próprias cognições, por hora vou ver onde meu cachorro arrastou o tapete. Até mais!

Ausência de elevação

Há quem diga que é melhor manter-se com os pés no chão, porém vejo nessa atitude uma estagnação que inibe o sucesso, haja visto que o menor distanciamento dos pés do chão possibilitam um desequilibrio, não havéra doutra forma a realização do passo que forma o novo caminho e o novo caminhante, o caminhante e o caminho se confundem no memso horizonte de sonhos e realizações, porém é preciso permitir-se desequilibrar e voltar ao equilibrio, firmar e desafirmar se na mudança dos passos, saber a hora de tirar o pé do chão e a hora de firmá-lo novamente, preparando o novo desiquilibrio de mudança. A ausência da menor elevação possível transfere o homem do seu chamado de evolução para o estado do instinto, manifestar-se como sucesso predica atitudes de coragem!

segunda-feira, fevereiro 21, 2011

Mentir

A questão psicológica da mentira é, entretanto, muito mais complexa do que vulgarmente se pensa. Sua raiz se encontra na pulsão epistemofílica formulada por Freud, Melanie Klein e Bion, que situam a curiosidade infantil articulada ao sadismo e oscilando entre a verdade e o pensamento onipotente. A possibilidade sempre presente, portanto, de falsificação da realidade está na essência do psiquismo humano. A situação que, no âmbito da produção do pensamento, Bion chama de função K, expressa a dialética da relação verdade-mentira. Assim, é muito fácil de compreender que uma determinada ética possa conter a própria falsificação que seu discurso pretende refutar. Essa ética pode ser tanto a do narcisismo da classe dominante quanto a dos regimes paranóicos. A mentira, neste caso, é consubstanciada à ética, o que filosoficamente é um paradoxo. Entretanto, na perspectiva política e na dinâmica do inconsciente, essa contradição é perfeitamente conhecida e reconhecida.
A mentira, por outro lado, pode estar integrada a certas personalidades que a psiquiatria denomina, sem muita precisão, de psicopáticas e a psicanálise qualifica como atuadoras. Neste particular, é bom lembrar que a política está situada na ordem do agir muito mais do que no refletir e, portanto, os indivíduos de ação perversa ou equilibrada estarão sempre mais próximos do acting out, do que do pensamento reflexivo. Evidentemente, o indivíduo perverso age de modo falso, sintonizado com o seu Eu, enquanto as pessoas mais equilibradas entram em choque com sua consciência ao mistificarem a realidade em benefício próprio. A mentira do psicopata é ego-sintônica e, portanto, não lhe causa culpa ou remorso. Essa condição pode evoluir desde a mentira convencional, passando pela mentira delinqüencial, até alcançar a mitomania. Deste modo, teríamos embutidas na vida política quatro formas básicas de mentira: a mentira por motivos de Estado, a mentira derivada da ética da falsa consciência burguesa, a mentira da ética paranóica e a mentira psicopática. Esta conceituação visa à compreensão do processo de incorporação da mentira ao sistema político, tanto em condições normais quanto patológicas.

quinta-feira, janeiro 27, 2011

POR JOANNA DE ÂNGELIS

“(...) Não seja de estranhar-se que a sociedade do terceiro milênio, cansada de prazer e de sofrimento, de poder e de frustração, de glórias passageiras e de lutas exaustivas de grandeza mentirosa, pare na desabalada corrida a que se entrega em alucinação, para voltar às suas origens espirituais, para encontrar o repouso na prece, a alegria na caridade, a saúde no estímulo de viver, a fraternidade e a esperança no amor...
Estes são dias especiais e revolucionários, nos quais as multidões, cansadas de frivolidade e de gozos vãos, farão a sua viagem na experiência do autoencontro, da autoiluminação, do bem fazer, transformando as veneráveis teorias em práticas existenciais ditosas.”

BIG BROTHER BRASIL

Que me perdoem os ávidos telespectadores do Big Brother Brasil (BBB), produzido e organizado pela nossa distinta Rede Globo, mas conseguimos chegar ao fundo do poço...A décima primeira (está indo longe!) edição do BBB é uma síntese do que há de pior na TV brasileira. Chega a ser difícil,... encontrar as palavras adequadas para qualificar tamanho atentado à nossa modesta inteligência.
Dizem que em Roma, um dos maiores impérios que o mundo conheceu, teve seu fim marcado pela depravação dos valores morais do seu povo, principalmente pela banalização do sexo. O BBB é a pura e suprema banalização do sexo. Impossível assistir, ver este programa ao lado dos filhos. Gays, lésbicas, heteros... todos, na mesma casa, a casa dos “heróis”, como são chamados por Pedro Bial. Não tenho nada contra gays, acho que cada um faz da vida o que quer, mas sou contra safadeza ao vivo na TV, seja entre homossexuais ou heterosexuais. O BBB é a realidade em busca do IBOPE...
Veja como Pedro Bial tratou os participantes do BBB. Ele prometeu um “zoológico humano divertido” . Não sei se será divertido, mas parece bem variado na sua mistura de clichês e figuras típicas.
Pergunto-me, por exemplo, como um jornalista, documentarista e escritor como Pedro Bial que, faça-se justiça, cobriu a Queda do Muro de Berlim, se submete a ser apresentador de um programa desse nível. Em um e-mail que recebi há pouco tempo, Bial escreve maravilhosamente bem sobre a perda do humorista Bussunda referindo-se à pena de se morrer tão cedo.
Eu gostaria de perguntar, se ele não pensa que esse programa é a morte da cultura, de valores e princípios, da moral, da ética e da dignidade.
Outro dia, durante o intervalo de uma programação da Globo, um outro repórter acéfalo do BBB disse que, para ganhar o prêmio de um milhão e meio de reais, um Big Brother tem um caminho árduo pela frente, chamando-os de heróis. Caminho árduo? Heróis?
São esses nossos exemplos de heróis?
Caminho árduo para mim é aquele percorrido por milhões de brasileiros: profissionais da saúde, professores da rede pública (aliás, todos os professores), carteiros, lixeiros e tantos outros trabalhadores incansáveis que, diariamente, passam horas exercendo suas funções com dedicação, competência e amor, quase sempre mal remunerados..
Heróis, são milhares de brasileiros que sequer têm um prato de comida por dia e um colchão decente para dormir e conseguem sobreviver a isso, todo santo dia.
Heróis, são crianças e adultos que lutam contra doenças complicadíssimas porque não tiveram chance de ter uma vida mais saudável e digna.
Heróis, são aqueles que, apesar de ganharem um salário mínimo, pagam suas contas, restando apenas dezesseis reais para alimentação, como mostrado em outra reportagem apresentada, meses atrás pela própria Rede Globo.
O Big Brother Brasil não é um programa cultural, nem educativo, não acrescenta informações e conhecimentos intelectuais aos telespectadores, nem aos participantes, e não há qualquer outro estímulo como, por exemplo, o incentivo ao esporte, à música, à criatividade ou ao ensino de conceitos como valor, ética, trabalho e moral.
E ai vem algum psicólogo de vanguarda e me diz que o BBB ajuda a "entender o comportamento humano". Ah, tenha dó!!!
Veja o que está por de tra$$$$$$$$$$$$$$$$ do BBB: José Neumani da Rádio Jovem Pan, fez um cálculo de que se vinte e nove milhões de pessoas ligarem a cada paredão, com o custo da ligação a trinta centavos, a Rede Globo e a Telefônica arrecadam oito milhões e setecentos mil reais. Eu vou repetir: oito milhões e setecentos mil reais a cada paredão.
Já imaginaram quanto poderia ser feito com essa quantia se fosse dedicada a programas de inclusão social: moradia, alimentação, ensino e saúde de muitos brasileiros?
(Poderiam ser feitas mais de 520 casas populares; ou comprar mais de 5.000 computadores!)
Essas palavras não são de revolta ou protesto, mas de vergonha e indignação, por ver tamanha aberração ter milhões de telespectadores.
Em vez de assistir ao BBB, que tal ler um livro, um poema de Mário Quintana ou de Neruda ou qualquer outra coisa..., ler a Bíblia, orar, meditar, passear com os filhos, ir ao cinema..., estudar... , ouvir boa música..., cuidar das flores e jardins... , telefonar para um amigo... , visitar os avós.... , pescar..., brincar com as crianças... , namorar... ou simplesmente dormir.
Assistir ao BBB é ajudar a Globo a ganhar rios de dinheiro e destruir o que ainda resta dos valores sobre os quais foi construída nossa sociedade.
Um abismo chama outro abismo.

(Luiz Fernando Veríssimo)

segunda-feira, janeiro 17, 2011

Do querido Dam Minhoto

Sempre é bom ter colaboradores, alguns nos tornam melhores com pequenos atos.
Preciosidades gratuitas devem ser oferecidas sempre, vai de quem recebe, dizer se apreciou ou não, lembrando sempre que todo valor, do ato ou da coisa em si, antes, está dentro de quem julga apreciar!

"É curioso como não sei dizer quem sou. Quer dizer, sei-o bem, mas não posso dizer.
Sobretudo tenho medo de dizer porque no momento em que tento falar não só não exprimo o que sinto como o que sinto se transforma lentamente no que eu digo.
Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões,
eu amava. Não sabia que, somando as incompreensões é que se ama verdadeiramente. Porque eu,
só por ter tido carinho, pensei que amar é fácil.
Suponho que me entender não é uma questão de inteligência e sim de sentir, de entrar em contato...
Ou toca, ou não toca."

sábado, janeiro 15, 2011

Juntando tudo e colando aqui!

da Timeline!
incordan
indignação popular é política e mais quando gera cobrança, de olho no poder!
o que resta é esperar que o estado sensibilize-se e faça uma gestão digna, saber q sp não tem p onde escoar tanta água ja sabem!
considero o psdb política paliativa, eficácia momentâneo, incompleta, métodos que trazem melhoras e não eliminam a causa
anarquia não é o estado caótico é completa flexibilidade, uma vez que temos sequência com dilma, o caos continua para quem não admite mudar
a anarquia que se considerava sobre lula foi principio de comando em vista do governo fhc, submetido a poder externo e estaganção nacional
as vezes imagino como teria sido a tucanalha seguindo a governar, será que estaríamos bem? ou no mínimo como hoje?
lula junto com a então ministra dilma criou o programa "minha casa minha vida", o psdb de alkimin em são paulo criará "meu bote minha vida"
o que fez o homem rural não permanecer na sua propriedade e o forçou a se colocar irregular em áreas impróprias é uma das causas do fracasso
penso que as calamidades naturais estão ligadas a irresponsabilidade de governos que não investiram em políticas pública enquanto era tempo

do face!
danilo domingues
gosto de kant qndo diz q "a idéia transcendental de liberdade está longe do seu conteúdo total de conceito psicologico o qual é em grande parte empírico, constitui somente o conteúdo da espontaneidade absoluta", em suma ninguém é tal qual livre como se pensa!
tantas liberdades confundidas com libertinagens aprisionantes, e outras com gaiolas de ouro, ou mesmo asas de galinha! é isso ae pessoal, liberdade é algo parecido com o q clarisse lispector diria como querer e vontade que nem tem nome, eu prefiro ainda ficar com a noção que liberdade é o bem de uma escolha que queremos nos submeter. sumi non artistico large rss, liberdade é arte expressa, a impressa é coersão! bom vamo parar por aqui, logo num suporta mais os caracteres do face

Outra abolição

Durante séculos, a ideologia dominante no Brasil via a pobreza como uma coisa natural, contra a qual não havia necessidade de preocupação política. No máximo um sentimento pessoal de caridade. É muito recente que o assunto passou a ser levantado sob a ilusão e a promessa de que o crescimento econômico tinha por objetivo também reduzir e até eliminar o quadro de pobreza, como, se supunha, nos países desenvolvidos.
É recente a adoção de políticas que servem diretamente, não indiretamente pelo crescimento, para diminuir o problema. Os governos militares implantaram a aposentadoria rural, com consequências muito positivas sobre o grau máximo de penúria entre pobres, sobretudo os velhos e seus familiares. O governo Sarney implantou programa de distribuição de comida; o governo Fernando Henrique implantou nacionalmente o programa Bolsa Escola, que Lula espalhou por todo o Brasil, sob o nome e a forma de Bolsa Família.
Estes programas têm sido fundamentais para mitigar o problema da penúria entre os pobres dos pobres. Hoje, a pobreza continua, mas a fome regrediu; as massas, mesmo pobres, compram bens de consumo essenciais. No entanto, depois de 25 anos de democracia, não houve um programa consistente para a abolição do quadro de pobreza no Brasil. Um programa que inclua todos os brasileiros nas condições essenciais da modernidade, dando-lhes condições de ascenderem socialmente. Os programas das últimas décadas, todos positivos, são capazes de proteger os pobres da miséria absoluta, mas não lhes oferecem uma porta de saída da pobreza.
A primeira presidente no Brasil tomou posse no dia 1º. Sua marca, porém, começou no dia 4 de janeiro, três dias depois, quando lançou o PAC da Pobreza, que propõe ir além dos programas até aqui executados. Tomando a expressão no sentido de conjunto de medidas visando a atingir objetivos, o "PAC" da Pobreza pode representar o primeiro esforço nítido de um chefe do Executivo republicano no sentido de enfrentar o problema. Mas, para que esta manifestação de intenção surta efeito, será preciso que a presidente Dilma faça algumas modificações na forma de enfrentar o problema.
Terá que deixar claro que não se trata apenas de mitigar o problema, mas de abolir a vergonha. Para isto, Dilma vai precisar redefinir o entendimento do problema e sua superação. Até hoje, a pobreza é vista como a falta de crescimento econômico, sua solução como o resultado do crescimento ou de transferência de renda por problemas assistenciais.
Para enfrentar corretamente o problema da pobreza deve sair da economia para a ética, tratá-lo como um assunto moral, usando os recursos da economia, mas sem esperar por ela. E, tecnicamente, a pobreza deve ser vista não como falta de renda, mas falta de acesso aos bens e serviços essenciais, inclusive àqueles que são comprados no mercado, com uma renda mínima necessária. Como falta de acesso à educação, saúde, cultura e segurança, que não se consegue mesmo comprando estes bens e serviços no mercado. Acesso a uma boa educação e um bom serviço de saúde tem que ser pela oferta destes serviços publicamente.
A pura e simples transferência de renda por meios assistenciais não permitirá a superação do quadro de pobreza. No máximo permite a alimentação comprada no mercado, sem o oferecimento de uma porta de saída da pobreza.
O caminho para enfrentar o problema da pobreza, que fará com que a presidente Dilma marque definitivamente sua passagem na história, como uma chefe de governo e Estado transformadora do país, está em uma revolução conceitual com a adoção do que vem sendo chamado de "keynesianismo produtivo e social", com o emprego de pessoas pobres, para lhes garantir uma renda, mas sobretudo para possibilitar a produção e oferta dos bens e serviços que permitem a saída da pobreza.
Com um conjunto de "incentivos sociais diretos" para empregar pobres para que produzam o que necessitam, como saneamento, frequência de seus filhos à escola; e, "indiretos", salários decentes para os professores, implantação de um sistema de saúde pública eficiente. Assim será possível executar com eficiência uma outra Abolição, a da pobreza.

Crisotvam Buarque é Professor da UnB e Senador / PDT- DF

quinta-feira, janeiro 13, 2011

Blog do Júnior de Leca: Censurado: Campanha publicitária de ateus e agnóst...

Blog do Júnior de Leca: Censurado: Campanha publicitária de ateus e agnóst...: "Campanha publicitária idealizada pela Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos que foi censurada por empresários que rasgam con..."