terça-feira, abril 19, 2011

Verônica. Um olhar face a face.


Diante da liturgia deste tempo, após uma celebração, me propuz a intimizar um personagem da tradição católica. Eu quiz aqui pensar o mistério da dor que nossa paixão tem causado e a relação dos amigos durante o percurso que nos submetemos por padecimento, por morte, por amor e por glória.
Segue o belíssimo canto da tradição, a mulher que enxugou o rosto ensanguentado do Cristo e no pano plasmou o Verdadeiro Ícone [Vero Ícone / Verônica]

Canticus ad Vero Icone
O vos omnes qui transitis per viam: attendite et videte si est dolor sicut dolor meus.
O vos omnes qui transitis per viam, attendite et videte: Si est dolor similis sicut dolor meus.
Attendite, universi populi, et videte dolorem meum. Si est dolor similis sicut dolor meus.

Toda dor é mistério e a dor maior é a própria dor. O Cristo tendo estado com os seus neste mundo, esteve rodeado de muitas mulheres e homens aos quais ensinou. Quem eram essas pessoas que acompanhavam o chamado filho de Deus? Eram pessoas de passados feios, como diriam nossos pais e mães que nos educaram a partir da estética, dizendo nos enquanto pequenos, "não faça isso que é feio, ou, olha que bonito que você fez", compreender a passagem de Jesus na sua sociedade é compreender um rosto diferente, plasmado a partir da verdade, porém não é sublime a figura ensanguentada, é o flexo da decadência. Jesus tendo chamado alguns para conviver, chama neles e deles também seus passados e vivem sinceros, um modo diferente de olhar face a face a vida de cada um.
Tendo Jesus mostrado um modo de vida sincero, não seria diferente a atitude daqueles seus discípulos e discípulas. No caminho da dor toda ajuda é necessária.
Vero ícone, a expressão latina originou o nome de uma mulher da tradição católica, aquela que enxuga o rosto do sofredor, Verônica é passante na via de outra via, ou seja, é passante pelo caminho de outro que também passa. Verônica é outra apaixonada, é outra sensibilizada pela paixão, não somente a sua, mas a daquele a quem a tantos e a ela também, revelara uma forma de viver por amor.
Interessante perceber a mulher que enxuga o rosto do sofredor, a amizade desprendida do momento e da dor, do pesar e da compaixão. Revelação da inutilidade, o fim era eminente, porém a presença da amizade mostra auxílio, dá força para seguir com a cruz.
Momento de redenção que ocorrem aos poucos, pequenos gestos que ligam nos ao sentido de relacionar-se, amizade fiel, resgate, quando deles desprendem olhares de cuidado. O mais bonito da relação é a complascência, não há muitas palavras, há um ato, e isso diz tudo. O fundamental do ato é assemelhar-se, é ir ao encontro da dor, mesmo que não diminua, mas reparte, sofre se junto.
Similitudes nos fazem análogas nossos amigos, diante do caminho difícil, têm insistido na fraqueza que carregamos como cruz, esses, nossos amigos, sabem acorrer até nosso rosto com sinceridade, mesmo que seja para misturar se, sujar-se no sangue vertente das nossas feridas, plasmam nossas dores e suas forças buscam somente o alívio, a recondução para o caminho, mesmo que esse, seja algum modo de fim, uma etapa, uma recondução para uma finalização.
Tantos ícones de verdade, tantas figuras que surgem em nossas vidas, são essas figuras e ícones que tornam menos agressivo o sofrimento, quando por eles e a partir deles mesmos recebemos um alívio, enxugam nosso rosto ferido pelo tempo e por nossas particularidades. Verônicas em nossas passagens, em nossas paixões. Verônicas sempre nos acompanharão no caminho da dor que o amor causou. Somente quem irmanou se ao nosso sangue vertido, ao nosso sofrimento, vê real e verdadeira a nossa face. Verdadeiros ícones são os rostos mostrado e compreendidos na dor.
Esta é uma homenagem aos meus amigos, Verônicas no meu próprio caminho!

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