A questão psicológica da mentira é, entretanto, muito mais complexa do que vulgarmente se pensa. Sua raiz se encontra na pulsão epistemofílica formulada por Freud, Melanie Klein e Bion, que situam a curiosidade infantil articulada ao sadismo e oscilando entre a verdade e o pensamento onipotente. A possibilidade sempre presente, portanto, de falsificação da realidade está na essência do psiquismo humano. A situação que, no âmbito da produção do pensamento, Bion chama de função K, expressa a dialética da relação verdade-mentira. Assim, é muito fácil de compreender que uma determinada ética possa conter a própria falsificação que seu discurso pretende refutar. Essa ética pode ser tanto a do narcisismo da classe dominante quanto a dos regimes paranóicos. A mentira, neste caso, é consubstanciada à ética, o que filosoficamente é um paradoxo. Entretanto, na perspectiva política e na dinâmica do inconsciente, essa contradição é perfeitamente conhecida e reconhecida.
A mentira, por outro lado, pode estar integrada a certas personalidades que a psiquiatria denomina, sem muita precisão, de psicopáticas e a psicanálise qualifica como atuadoras. Neste particular, é bom lembrar que a política está situada na ordem do agir muito mais do que no refletir e, portanto, os indivíduos de ação perversa ou equilibrada estarão sempre mais próximos do acting out, do que do pensamento reflexivo. Evidentemente, o indivíduo perverso age de modo falso, sintonizado com o seu Eu, enquanto as pessoas mais equilibradas entram em choque com sua consciência ao mistificarem a realidade em benefício próprio. A mentira do psicopata é ego-sintônica e, portanto, não lhe causa culpa ou remorso. Essa condição pode evoluir desde a mentira convencional, passando pela mentira delinqüencial, até alcançar a mitomania. Deste modo, teríamos embutidas na vida política quatro formas básicas de mentira: a mentira por motivos de Estado, a mentira derivada da ética da falsa consciência burguesa, a mentira da ética paranóica e a mentira psicopática. Esta conceituação visa à compreensão do processo de incorporação da mentira ao sistema político, tanto em condições normais quanto patológicas.