segunda-feira, dezembro 06, 2010

Crítica a profissão da fé cristã, face a atualidade

Vai pão ou vai circo?
É impressionante a sociedade do espetáculo que se entretem e não se desenvolve, deleites do pane et circe a la modernidade. Onde está a seriedade da fé e o respeito por si mesmo e sua consciência?
Uma fé amadurecida não necessita de milagres como os do tempo da chamada manifestação messiânica de Jesus, isso já afirmava Agostinho de Hipona pelos idos do século III. Atualizar milagre, é antes de qualquer manifestação do sobrenatural, uma manifestação coerente do ordinário da vida, frente a tantos desafios que compete a integridade do humano, o milagre concretiza-se na ação que nos prende ao presente de modo que enxerguemos e expressemos o fidei, encerrando-o no cotidiano, manifestar [=fazer pelas próprias mãos] a ação do divino, existir entusiasmado[in=theos], ou seja, em Deus e dentro do mundo.
Olhar o texto do evangelista que narra a adúltera que não foi apedrejada por uma intervenção de Jesus é ler as entrelinhas de uma narração miraculosa, ou seja, algo que era socialmente aceito, amaparado pela lei mosaica, corrente na vida da cidade como ponto de equilibrio moral entre bem e o mal e que factualmente era o correto pra situação, mas é desconstruido por um, até então, agitador social, Jesus não está a frente do seu tempo primeiramente como a epifania do Pai criador, ele está na sua realidade social como um membro da cidade [não entramos no mérido da cidadania, deixamos aos gregos o termo], Jesus é um seguidor dos costumes, portanto, o que mais me assusta atualmente é a busca desse ser religioso taumaturgo, deixando o caracter religioso humano alheio á experiencia da fé.
A existência [ex + entiae = ente para fora de si], justifica-se pelos atos do que é, do ser, portanto encontrar ou buscar a realidade religiosa que nos liga ao sentido de ser quem se é, passa pelo foco da necessidade que se tem, existimos no contexto capitalista, e aqui nota se uma necessária clareza de fé ante o social que se insere e não raro temos definições desvirtuadas do que representaria hoje o Cristo para ditos cristãos, definindo ainda mais pelo sublime estético, sentimento humanitário mesmo que não seja consideradamente um deus-homem pois é definido mais divino que humano [o que é uma heresia das grandes, a primeira inclusive de todas as heresias cristãs], consideram uma boa energia, um exemplo, uma esperança, um instrumento moral, instrumento de manipulação social, de regra de convivência e alguns arriscam dizer que é salvador do mundo, sem mesmo saber explicar do que ele salvou o mundo, portanto, é clara uma manipulação ignorante da mensagem cristã básica, considerando em variados níveis da exortação crente, sejam dos pastores que pregam a dita teologia da prosperidade ou seja do fidei senso comum ensinado nas assembléias, e aqui tomo uma exortação feita pelo cardeal de Buenos Aires, Dom Bergolho aos seus catequistas que "quando a catequese não teve um encontro pessoal com o Cristo e sua mensagem, corre o risco de enganar os outros em vez de ensina-los", mas qual é o parâmetro basilar para figurar a mensagem cristã hoje?
A manipulação de "deus", causadora da crença mediocre, não é nova, já existia no próprio tempo de Jesus, sem falar de várias narrações como a dos 10 leprozos e 1 só volta agradecer a cura, dentre outras, mas ainda que a grei não busque Jesus na montanha da multiplicação dos pães, busca no saciar da fome do espetáculo, do bem sentir se, no corforto do ego e outras formas mais de instantaneamente estar bem, parece que se esquece que o final das contas a caminhada é um rumo de Calvário.
Tudo está ligado ao sentido da fé e da razão do crer, haja visto a hipocrisia do Natal, reza a lenda do bom velhinho e esquece a genese cristã do evento, bom velhinho que espalha magia com renas voadoras e que nem é tão velho assim, porque surgem no consumo norte-americano, da propaganda da Coca-Cola pelos anos 30. As mesas das festas tropicais se enfeitam de material sintético e isopor pra simular neve em pleno verão do Brasil, é a comemoração natalícia de que? Da artificialidade? Do travestismo capitalista? Do mercado aquecido? Da ignorância? Ou um simples ferial?
Nunca se ouviu falar tanto de Jesus como hoje, porém que péssima qualidade é a maioria das vezes, uma teologia cristã descaracterizada, assemelhada a teogonia helênica, um Jesus clichê, mítico, ou seja, todo um fenômeno de crise de crença, é denunciante a necessidade de reevangelização dos próprios batizados que desfiguram a rara beleza do Cristo[alteridade]. Há uma necessidade de rever o conceitual dos extremos, seja do extremo hierárquico que afasta se da comunidade simples de Jesus e legaliza a própria fé dos crentes ou seja o extremo do senso comum que sincretiza sua fé da cristandade ao kardecismo passando ás reminiscência afro e culmina no "carpe diem" hedonista atual, referindo se que o importante é ser "feliz agora", nessa maratona de perca de referencial valorizo aqui a tese atéia, que mesmo antiteista é convicta do que crê. Necessita-se da retomada conceitual da "vita bonorum - vita lectio", quem sabe uma reflexão sobre o deus que o liga ao sentido de viver seja necessária pra aclarear a idéia sobre si mesmo, sobre quem se é.
Professos cristãos não assumiram a forma jesusiana de ser, não há expressões de acolhida, o senso comum corrompe pela superficie, mascarando e travestindo a cristandade, perante isso tudo eu fico com a sincera questão do próprio Cristo aos seus mais chegados:
E vocês? Quem vocês dizem que eu sou? [Lc. 9, 18 - 22]

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